Procissão (Gazeta do Ezaú)

3 Out

“Escrevo hoje para este respeitável folhetim dos interiores. Com resistência, digo já, porque em tempos presentes não há prelo nem penas. Tão modernas caminham as coisas que penso ser possível que me leiam até no Recife e no Porto. Quando veio ter comigo o afável Dr. Raviel, dono do Folhetim dos Mirantes que cai agora aos teus olhos, pouco entendi da oferta de escrever para sua publicação honrável. A despeito dos desentendimentos, tratei de aceitar, pois antes de tudo e de nada o tenho em farta estima, e continuando, porque as mais dignas oportunidades são as escassas, que não se dão à arraia-miúda. 

Mas persiste o vício de não ver boa razão para o convite. Que tenho a oferecer? Pouco, quase nada, módicas vivências de velho. Veja se minhas prédicas num e noutro liceus não pareceram boa coisa a todos, ou talvez minhas andanças pela Europa Ibérica. Não sendo tanto a razão o que importa, e sim os feitos e fatos, deixei as interrogativas de lado, e recomendo ao leitor que faça como eu. Não sei a que vim, só se sabe que vim, então caminhemos adiante, sem dar contemplações às poeiras que seguem a procissão.

Estando aqui a metáfora da procissão, sucedeu-se nessa semana, nos entornos da Praça das Oliveiras, uma procissão em honraria a Santa Teresinha (não sei se faz correto quem escreve com “s” ou com “z”, mas lia-se em todo canto “Teresinha”, então assim fica). Na esquina da Rua dos Palmares com a Joaquim Nabuco, forrava a estrada um desinibido buraco, que beliscava a passagem de calçada a calçada. Não sendo isto provação suficiente aos devotos, as chuvas deram as caras na noite anterior, fazendo do buraco uma taça colossal de lama e pedregulhos. Que não se ponha em dúvida a fé deste povo, mas preferiram desviar a rota pela Rua Casaverde. E seguiu a caminhada.

Saíram todos, o povaréu e os papa-hóstias, na cauda do andor – sempre a passos comedidos, é claro, porque a estatueta da santa é de barro. Cada um tomou seus livros de cânticos e umas velas e palitos de fósforo. Distribuíam os sacristões papéis e panfletos, sabe Deus sobre o que versavam. Para consumar a festança, apareceram vendedores nômades, aos quais prefiro chamar de comerciantes não-pagadores de impostos, comerciando seus quitutes, seus petiscos, suas bugigangas e adereços religiosos.

Os experientes já fitam o remate disso tudo. Findada a festa, lá estavam os tocos de vela, os palitos de cabeça negra, os papéis dos sacristões, as migalhas dos quitutes e os embrulhos dos petiscos. As vielas cobriam-se com toda essa imundície, e nisso se contorciam de vexame, ao modo das moças maltrapilhas que se passam aos olhos públicos. E melhor: não havia boa alma de vassoura na mão. Mas são todos erros veniais. Nada que umas ladainhas prescrevidas pelo padre não possam absolver. E até a próxima procissão. Ezaú*.”

*Ezaú é um personagem fictício, que escreve semanalmente a fictícia “Gazeta do Ezaú” para o também fictício Folhetim dos Mirantes

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