Até no Brasil…

2 Out

Ontem foi deflagrado o ápice do grande concerto brasiliense, no qual o tenor deslumbra a platéia, ou melhor, a plateia (bendita reforma) com seus reverenciáveis traquejos vocais. A cúpula do Mensalão está no banco dos réus.  Se não desafinar ou sair do tom, o ministro Joaquim Barbosa será aclamado de pé pelo povo brasileiro, debaixo de muito “bravo!” e de calorosas palmas. Já Lewandowski, pobre vassalo, se vivesse noutras épocas, não receberia muito além de pedras e achincalhações, tudo regado a belas pateadas. Aos bons tenores, o ode, e aos maus, o ódio.

E a maestria do espetáculo fascina não apenas aos brasileiros. Defrontei-me hoje com juízos admirados de um português que pregava: “Até no Brasil os políticos são condenados por corrupção.” Até no Brasil. Até aqui. O país dos impunes e da leniência aguda dando aos corruptos aquilo que lhes cabe. Estava espantado o nosso irmão do ultramar, e alguém dirá que não passa de um ingênuo impressionado? Eu não direi, porque petisco do mesmo espanto.

E já que veio o Mensalão à pauta, seria indecente não citar o altiloquente texto escrito por Ferreira Gullar à Folha de S. Paulo do último domingo. Antevendo acusações de ser anti-petista ou anti-Lula, deixo aqui as linhas iniciais do texto supracitado: “Gostaria de deixar claro que não tenho nada de pessoal contra o ex-presidente Lula, nem nenhum compromisso partidário, eleitoral ou ideológico com ninguém.” Ferreira disseca com uma destreza sem par as falhas dos recentes discursos do ex-presidente, notadamente aqueles que versam sobre o Mensalão. Dentre eles, uma entrevista concedida ao New York Times.

A entrevista em questão foi uma sopa de despeito e zombaria. Uma sopa quente atirada nas fuças do povo brasileiro e do Superior Tribunal Federal (STF). Lula disse que não acredita na existência do Mensalão. Não se sabe ao certo o que quis dizer com “crer na existência”. Pensa ele que o Mensalão é uma dessas crendices para as quais a devoção é facultativa? Que o Mensalão é mais uma dessas alegorias folclóricas contadas às crianças? Mais um passo e ele estaria sugerindo que as manchetes sobre o episódio criminoso fossem vendidas ao lado de Peter Pan.

Não, ilustre ex-presidente, o STF não está julgando uma fábula ou mais uma daquelas conspirações que servem ao sensacionalismo. Diante da farta coletânea de evidências expostas durante os julgamentos, negar a existência do Mensalão é um ultraje, uma ofensa moral e um desatino. Após tão vil desserviço prestado à reforma ética do país, só nos resta lamuriar. Pobre Lula, pobre Brasil.

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